A ALMA E A MORTE


C. G. Jung

 

Muitas vezes eu tenho sido indagado a respeito do que eu acredito sobre a morte, o inquestionável término da existência individual. A morte é conhecida por nós simplesmente como o fim. É o ponto final, sempre colocado após o fechamento da sentença e seguido apenas por memórias e efeitos posteriores nos outros. Para a pessoa que morre, contudo, a areia se escoou na ampulheta; a pedra em movimento chegou ao repouso. Quando a morte nos confronta, a vida sempre parece um fluxo descendente ou um relógio que foi accionado e cuja "parada" final é tida como certa. Nunca estamos mais convencidos dessa "parada" do que quando a vida humana chega ao seu fim diante dos nossos olhos e a questão do sentido e do valor da vida nunca se torna mais urgente ou mais angustiante do que quando vemos o suspiro final deixar um corpo que instantes antes estava vivendo.

Quão diferente o sentido da vida se apresenta quando vemos uma pessoa jovem se empenhando por metas distantes e planejando o futuro e comparamos isso com um inválido incurável, ou com um idoso que está se encaminhando relutante e impotentemente para um túmulo! Juventude - gostamos de pensar - tem propósitos, futuro, sentido e valor, enquanto a chegada a um fim é apenas uma cessação sem sentido. Se um moço está preocupado com o mundo, com a vida e o futuro, então todo mundo acha isso lamentável, sem sentido, neurótico; ele é considerado covardemente ocioso. Porém, quando uma pessoa idosa treme secretamente e, mesmo, está mortalmente preocupada com o pensamento de que sua expectativa de vida razoável agora é de apenas uns tantos anos, então somos dolorosamente lembrados de certos sentimentos dentro de nossos próprios peitos; olhamos para longe e mudamos a conversa para algum outro tópico. O optimismo com que julgamos o moço falha aqui. Naturalmente, temos um estoque de banalidades apropriadas sobre a vida que ocasionalmente distribuímos para nossos semelhantes tais como "todos devem morrer algum dia", "não se pode viver para sempre" etc. Porém, quando se está só, e é noite, muito escura, e ainda não se ouve nada e não se vê nada a não ser os pensamentos que somam e subtraem os anos, as longas filas daqueles fatos desagradáveis que, impiedosamente, indicam quão longe o ponteiro do relógio se moveu adiante e a lenta, irresistível aproximação do muro da escuridão que finalmente engolfará tudo que eu amo, possuo, desejo, espero e planejo, então, todas as nossas profundidades sobre a vida se esvaem furtivamente para algum esconderijo secreto e o medo envolve o insone como um cobertor asfixiante.

Muitos jovens têm, no fundo, um medo pânico da vida (ainda que, ao mesmo tempo, eles a desejem intensamente) e um número ainda maior de idosos tem o mesmo medo da morte. De fato, eu conheci pessoas que temeram muito a vida quando eram jovens, para, depois, igualmente, sofrerem pelo medo da morte. Quando eles são jovens, diz-se que eles têm resistência infantil contra as demandas normais da vida. Pode-se dizer a mesma coisa quando eles são velhos, pois estão, do mesmo modo, temerosos com uma das demandas normais da vida. Estamos tão convencidos de que a morte é simplesmente o fim de um processo que, ordinariamente, não nos ocorre conceber a morte como uma meta e um preenchimento, como fazemos, sem hesitação, com os desígnios e propósitos da vida juvenil na sua ascendência.

A vida é um processo-energia. Como todo processo-energia, ela é, em princípio, irreversível e é, portanto, dirigida a uma meta. Essa meta é um estado de repouso. No fim das contas, tudo o que acontece é, assim como foi, não mais do que o distúrbio inicial de um estado de repouso perpétuo que continuamente tenta se restabelecer. Vida é teleologia par excellence1; é o esforço intrínseco em direcção a uma meta e o organismo vivo é um sistema de intenções que aspiram se realizar. O fim de cada processo é sua meta. Todo fluxo de energia é como um corredor que se empenha, com o maior esforço e toda a sua força para atingir sua meta. O desejo juvenil pelo mundo e pela vida, pela satisfação de elevadas expectativas e metas distantes é o óbvio impulso teleológico da vida que, imediatamente, se transforma em medo da vida, resistências neuróticas, depressões e fobias se, num certo ponto, permanece preso no passado, ou recua diante dos riscos, sem os quais a meta invisível não pode ser atingida. Com o atingimento da maturidade e no zénite da existência biológica, a vida se lança em direcção a uma meta sem nenhum vacilo. Com a mesma intensidade e irresistibilidade com a qual ela se empenhou para cima antes da meia idade, a vida agora desce; para a meta que não mais se encontra no pico, mas no vale onde a ascensão começou. A curva da vida é como a parábola de um projéctil que, perturbada no seu estado inicial de repouso, sobe e, então, retorna para um estado de repouso.

A curva psicológica da vida, contudo, se recusa a se conformar com essa lei da natureza. Às vezes, a falta de acordo começa cedo, na ascensão. O projéctil ascende biologicamente, mas, psicologicamente, ele fica para trás. Nós erramos atrás dos nossos anos, abraçando nossa infância, como se dela não pudéssemos nos separar. Paramos os ponteiros do relógio e imaginamos que o tempo irá parar, quieto. Quando, após algum atraso, nós finalmente atingimos o pico, então, mais uma vez, psicologicamente, nós nos acomodamos para repousar e, embora possamos nos ver deslizando para baixo do outro lado, nós nos apegamos, ainda que apenas com olhadelas ambiciosas para trás, para o pico uma vez atingido. Assim como, cedo, o medo era um empecilho para a vida, também agora ele oferece resistência no caminho da morte. Podemos até admitir que o medo da vida nos reteve na subida, mas, exactamente por causa desse atraso, nós alegamos de tudo apenas para segurar com firmeza o pico que agora alcançamos. Mesmo que possa ser óbvio que, apesar de toda a nossa resistência (agora, tão profundamente lamentada), a vida tenha se reafirmado, ainda não prestamos atenção e continuamos tentando fazê-la parar, quieta. Nossa psicologia, então, perde sua base natural. A consciência se mantém no ar, enquanto a curva da parábola mergulha na descendente com velocidade cada vez maior.

A vida natural é o solo nutritivo da alma. Qualquer um que falhe em seguir com a vida, permanece suspenso, teso e rígido no meio do ar. É por isso que muitas pessoas se tornam tolas com a velhice; elas olham para traz e se agarram ao passado com um medo secreto da morte em seus corações. Elas se retiram do processo da vida, ao menos psicologicamente, e, consequentemente, permanecem fixas como nostálgicos pilares de sal, com vívidas recordações da juventude, mas sem relação de vida com o presente. Do meio da vida em diante, somente se mantém vigorosamente vivo quem está preparado para morrer com vida. Pois, na secreta hora do meio-dia da vida a parábola se reverteu, a morte nasceu. A segunda metade da vida não significa ascensão, desabrochamento, incremento, exuberância, mas morte, já que o fim é sua meta. A negação da realização da vida é sinónimo de recusa em aceitar sua conclusão. Ambos significam não querer viver e, não querer viver é idêntico a não querer morrer. Expansão e retracção fazem uma curva.

Sempre que possível, nossa consciência se recusa a se acomodar a essa verdade inegável. Ordinariamente, nos apegamos ao nosso passado e permanecemos imobilizados na ilusão da juventude. Ser velho é muito impopular. Ninguém parece considerar que não ser hábil para envelhecer é tão absurdo quanto não ser hábil para superar em crescimento os sapatos infantis. Um homem de trinta anos ainda infantil seguramente é para ser deplorado, mas um septuagenário juvenil - não é encantador? E, no entanto, ambos são perversos, sem estilo, monstruosidades psicológicas. Um homem jovem que não lute e conquiste perde a melhor parte de sua juventude e, um homem velho que não sabe como ouvir os segredos dos regatos, conforme eles despencam dos picos para os vales, não faz sentido; ele é uma múmia espiritual que não é mais do que uma rígida relíquia do passado. Ele se mantém à margem da vida, mecanicamente se repetindo a última trivialidade.

Nossa relativa longevidade, confirmada pelas estatísticas atuais, é um produto da civilização. É totalmente excepcional para os povos primitivos atingir a velhice. Por exemplo, quando eu visitei as tribos primitivas do Leste da África, vi muito poucos homens com os cabelos brancos que poderiam ter mais de sessenta anos. Mas, eles eram realmente velhos, eles pareciam ter sido sempre velhos, tão plenamente eles haviam assimilado suas idades. Eles eram exactamente o que eles eram, em todos os aspectos. Nós somos sempre apenas mais ou menos o que realmente somos. É como se nossa consciência tivesse, de algum modo, se afastado de seus alicerces naturais e não mais soubesse como se alinhar com o ritmo da natureza. É como se sofrêssemos de uma hybris2 da consciência que enganosamente nos leva a acreditar que o tempo de vida de alguém é uma mera ilusão que pode ser alterada de acordo com sua vontade. (É de se perguntar onde nossa consciência obtém tal habilidade para colocar-se tão contrária à natureza e o que essa arbitrariedade poderia significar.)

Assim como um projéctil voando para sua meta, a vida termina na morte. Mesmo sua ascensão e seu zénite são apenas estágios e meios para essa meta. Essa fórmula paradoxal não é mais do que uma dedução lógica do fato que a vida se dirige para uma meta e é determinada por um propósito. Não creio que eu seja, aqui, culpado de jogar com silogismos. Nós garantimos meta e propósito para a ascensão da vida; por que não para a descida? O nascimento de um ser humano é prenhe de significados; por que não a morte? Por mais de vinte anos o homem em crescimento está sendo preparado para o completo desabrochar de sua natureza individual; por que não poderia o homem velho preparar-se durante mais de vinte anos para sua morte? Por certo, no zénite, o indivíduo obviamente atingiu alguma coisa, ele é isso e ele tem isso. Mas, o que é obtido com a morte?

Neste ponto, exactamente quando isso poderia ser esperado, eu não quero, de repente, sacar uma crença do meu bolso e convidar meu leitor a fazer o que ninguém pode fazer - ou seja, acreditar em alguma coisa. Devo confessar que eu próprio também nunca poderia fazê-lo. Assim, eu certamente não afirmarei agora que se deve acreditar na morte como sendo um segundo nascimento nos levando a sobreviver para além do túmulo. Mas eu posso ao menos mencionar que o consensus gentium3 decidiu visões sobre a morte, inequivocamente expressas em todas as grandes religiões do mundo. Pode-se mesmo dizer que, em sua maioria, essas religiões são complicados sistemas de preparação para a morte, de tal modo que a vida, de acordo com minha fórmula paradoxal, realmente não tem significado excepto como uma preparação para a suprema meta da morte. Nas duas maiores religiões vivas, o Cristianismo e o Budismo, o sentido da existência é consumado no seu fim.
Desde o Iluminismo se desenvolveu um ponto de vista a respeito da natureza da religião que, ainda que seja uma concepção racionalista tipicamente equivocada, merece ser mencionado porque é muito amplamente disseminado. De acordo com essa visão, todas as religiões são alguma coisa parecida com um sistema filosófico e, como eles, são tramadas na cabeça. Supõe-se que alguém, em algum momento, inventou Deus e diversos dogmas e que tem conduzido a humanidade por aí, puxada pelo nariz, pelo nariz com essa fantasia "desejosa"4.

Mas, essa opinião é contraditada pelo fato psicológico de que a cabeça é um órgão particularmente inadequado quando se começa a pensar em símbolos religiosos. Eles decerto não provêm da cabeça, mas de algum outro lugar, talvez do coração; certamente, de um profundo nível psíquico muito pouco semelhante à consciência, que é sempre a camada superior. É por isso que os símbolos religiosos têm um carácter nitidamente "revelador"; eles são, usualmente, produtos espontâneos da atividade psíquica inconsciente. Eles são alguma outra coisa além do pensamento; ao contrário, no curso do milénio, eles se desenvolveram, vegetativamente , como manifestações naturais da psique humana. Mesmo actualmente podemos ver em indivíduos, a génese espontânea de símbolos religiosos genuínos e válidos, aflorando do inconsciente como flores de uma espécie estranha, enquanto a consciência fica à margem, perplexa, não sabendo o que fazer com essas criações. Pode-se assegurar, sem muita dificuldade, que, na forma e no conteúdo, esses símbolos individuais provêm da mesma mente, ou "espírito" (ou o que quer que seja chamado) inconsciente, como as grandes religiões da espécie humana. Em todo caso, a experiência mostra que as religiões não são, em nenhum sentido, construções conscientes, mas que provêm da vida natural da psique inconsciente para a qual, de algum modo, dá adequada expressão. Isso explica suas distribuições universais e suas enormes influências sobre a humanidade através da história, o que seria incompreensível se os símbolos religiosos não fossem , no fundo, verdades da natureza psicológica do homem.

Eu sei que muitas pessoas têm dificuldade com a palavra "psicológica". Para confortar esses críticos, eu gostaria de acrescentar que ninguém sabe o que é a "psique" e que se sabe muito pouco o quão longe a "psique" se prolonga na natureza. Uma verdade psicológica é, assim, apenas uma coisa tão boa e respeitável como uma verdade física, a qual se limita à matéria como aquela o faz à psique.
O consensus gentium que se expressa através das religiões está, segundo vemos, em correspondência com minha fórmula paradoxal. Por consequência, pareceria estar mais de acordo com a psique colectiva da humanidade considerar a morte como a realização do sentido da vida e como sua meta mais verdadeira, ao invés de uma mera cessação sem sentido. Qualquer um que aprecie uma opinião racionalista a esse respeito, se isolou psicologicamente e permanece em oposição à sua própria natureza humana básica.

Esta última sentença contém uma verdade fundamental sobre todas as neuroses, vez que as desordens nervosas consistem primeiramente numa alienação dos próprios instintos, numa separação da consciência de certos fatos básicos da psique. Por consequência, opiniões racionalistas andam inesperadamente junto de sintomas neuróticos. Como estes, elas consistem em pensamento distorcido, que tomam o lugar de pensamento psicologicamente correcto. Essa última espécie de pensamento mantém sua conexão com o coração, com os caminhos da psique, a raiz-mestra. Pois, iluminação ou não-iluminação, consciência ou não consciência, a natureza se prepara para a morte. Se pudéssemos observar e registrar os pensamentos de uma pessoa jovem quando ela tem tempo e ócio para devaneios, descobriríamos que, à parte algumas imagens-memória, suas fantasias estão, principalmente, preocupadas com o futuro. De fato, muitas fantasias consistem em antecipações. Elas são, em sua maioria, actos preparatórios, ou mesmo exercícios psíquicos para lidar com certas realidades futuras. Se pudéssemos fazer essa mesma experiência com uma pessoa idosa - sem o seu conhecimento, é claro - naturalmente encontraríamos, devido à sua tendência a olhar para traz, um número muito maior de imagens-memória do que em uma pessoa jovem, mas nós também encontraríamos um numero surpreendentemente maior de antecipações, incluindo aquelas da morte. Pensamentos de morte se empilham num espantoso grau, conforme os anos aumentam. Quer se queira ou não, a pessoa idosa se prepara para a morte. É por isso que eu penso que a própria natureza já está se preparando para o fim. Objectivamente, é indiferente o que a consciência individual possa pensar sobre isso. Mas, subjectivamente, faz uma enorme diferença se a consciência se mantém em passo com a psique ou se ela se apega a opiniões das quais o coração nada sabe. É tão neurótico na velhice não focar na meta da morte, como o é na juventude reprimir fantasias que tem que ser feitas com o futuro.

Na minha longa experiência psicológica, observei uma imensidão de pessoas cujas actividades psíquicas inconsciente eu podia seguir na presença imediata da morte. Como regra, o fim que se aproxima era indicado por aqueles símbolos que, também na vida normal, evidenciam mudanças na condição psicológica - símbolos de renascimento, tais como mudanças de localidade, viagens e outros parecidos. Frequentemente, eu tive a oportunidade de traçar de volta, por mais de um ano, numa série de sonhos, as indicações da aproximação da morte, mesmo nos casos onde esses pensamentos não eram instigados por situações externas. O ato de morrer, assim, tem seu início muito antes da morte real. Alem do mais, isso muitas vezes se mostra em mudanças peculiares de personalidade, que podem preceder a morte em um tempo muito longo. No geral, eu ficava espantado ao ver quão pouco alvoroço a psique inconsciente faz da morte. Poderia parecer como se a morte fosse alguma coisa relativamente sem importância, ou, talvez, nossa psique não se preocupasse com o que acontece com o indivíduo. Mas, parece que o inconsciente está, acima de tudo, interessado em como se morre; isto é, se a atitude da consciência está ajustada ao ato de morrer ou não. Por exemplo, uma vez eu tive que tratar de uma mulher com sessenta e dois anos. Ela era ainda vigorosa e moderadamente inteligente. Não era por falta de cérebro que ela era não conseguia entender seus sonhos. Infelizmente, apenas era muito claro que ela não queria entende-los. Seus sonhos eram muito claros , mas também muito desagradáveis. Ela havia fixado em sua mente que ela era uma mãe impecável com seus filhos, mas os filhos não compartilhavam essa visão de modo algum e os sonhos também mostravam uma convicção muito contrária. Eu fui obrigado a parar o tratamento após algumas semanas de infrutíferos esforços, porque eu tive que partir para o serviço militar (era durante a guerra). Nesse meio tempo, a paciente foi acometida de uma doença incurável, chegando após uns poucos meses a uma condição moribunda que poderia levá-la ao fim a qualquer momento. Na maior parte do tempo ela estava numa espécie de delírio ou num estado sonambúlico e, nessa condição mental curiosa, ela espontaneamente retomou o trabalho analítico. Ela falou de seus sonhos novamente e reconheceu para si mesma tudo o que ela havia previamente negado a mim com grande veemência e muito mais além. Esse trabalho auto-analítico continuou diariamente por várias horas, por cerca de seis meses. Ao fim desse período, ela havia se acalmado, assim como um paciente durante um tratamento normal e, então, ela morreu.

Dessa e de numerosas outras experiências desse tipo, eu devo concluir que a nossa psique é, no mínimo, não indiferente ao acto de morrer do indivíduo. A urgência, muitas vezes vista naqueles que estão morrendo, para corrigir o que ainda está errado poderia apontar na mesma direção.
Como essas experiências devem ser finalmente interpretadas é um problema que excede a competência de uma ciência empírica e vai além de nossas capacidades intelectuais, pois, para atingir uma conclusão final deve-se, necessariamente, ter tido uma experiência real de morte. Esse evento, infelizmente, põe o observador numa posição que torna impossível, para ele, dar um relato objectivo de sua experiência e das conclusões dela resultantes.

A consciência se move por estreitos limites, dentro do breve intervalo de tempo entre seu início e seu fim, o qual é encurtado em cerca de um terço pelos períodos de sono. A vida do corpo continua por um pouco mais; ela sempre começa antes e, muitas vezes, cessa depois da consciência. Início e fim são aspectos inevitáveis do todos os processos. Mesmo num exame mais aproximado é extremamente difícil enxergar onde termina um processo e outro começa, já que eventos e processos, começos e fins se fundem e, falando estritamente, formam um contínuo indivisível. Separamos os processos uns dos outro para fins de discriminação e entendimento, sabendo muito bem que, no fundo, toda divisão é arbitrária e convencional. Esse procedimento de modo algum afecta o contínuo do todo o processo, pois "começo" e "fim" são, primeiramente, necessidades da cognição consciente. Podemos estabelecer, com razoável certeza, que uma consciência individual, no que ela diz respeito a nós mesmos, tem um fim. Mas, permanece duvidoso se isso significa que a continuidade do processo psíquico também é interrompida, já que a ligação da psique com o cérebro pode ser afirmada com bem menos certeza hoje do que o poderia ser há cinquenta anos. A psicologia deve primeiro digerir certos fatos parapsicológicos, o quê, até agora, ela mal começou a fazer.

A psique inconsciente parece possuir qualidades que lançam uma luz muito peculiar sobre sua relação com espaço e tempo. Estou pensando naqueles fenómenos telepáticos espaciais e temporais, os quais, como sabemos, são muito mais fáceis de ignorar do que de explicar. A esse respeito, a ciência, com umas poucas louváveis excepções, tem, até aqui, pego o caminho mais fácil de ignorá-los. Devo confessar, contudo, que as assim chamadas faculdades telepáticas da psique me causaram muita dor-de-cabeça, pois a designação "telepatia" está muito longe de explicar qualquer coisa. A limitação da consciência a espaço e tempo é uma realidade tão irresistível que cada vez em que essa verdade fundamental é rompida deve ser classificada como um evento de elevado significado teórico, pois ele poderia provar que a barreira espaço-tempo pode ser anulada. O factor de anulação seria, então, a psique, já que espaço-tempo se agregaria a ela, quando muito, como uma qualidade relativa e condicionada. Sob certas condições, a psique poderia mesmo romper as barreiras do espaço e do tempo precisamente devido a uma qualidade essencial para ela, isto é, sua natureza relativamente transespacial e transtemporal. Essa possível transcendência do espaço-tempo, da qual, me parece, há uma boa dose de evidência, é de uma importância tão incalculável que ela deveria incitar o espírito de pesquisa aos maiores esforços. Nosso presente desenvolvimento da consciência está, contudo, tão atrasado que, em geral, ainda nos faltam os equipamentos científicos e intelectuais para adequadamente avaliar até que ponto os fatos da telepatia dão suporte à natureza da psique. Eu me referi a esse grupo de fenómenos meramente para indicar que a ligação da psique com o cérebro, isto é, sua limitação espaço-temporal, já não é mais auto-evidente e incontroversa como nós fomos levados a acreditar até agora.

Qualquer um que tenha o menor conhecimento do material parapsicológico que já existe e tem sido minuciosamente verificado, saberá que os ditos fenôómenos telepáticos são fatos inegáveis. Uma investigação objectiva e crítica dos dados disponíveis estabeleceria que percepções ocorrem como se em parte não houvesse espaço e, em parte, não houvesse tempo. Naturalmente, não se pode extrair disso a conclusão metafísica de que, no mundo das coisas, como elas são "nelas mesmas" não há nem espaço nem tempo e que a categoria espaço-tempo é, por conseguinte, uma teia na qual a mente humana se teceu como numa ilusão nebulosa. Espaço e tempo não são apenas as mais imediatas certezas para nós, eles são também óbvios empiricamente, já que tudo o que é observável acontece como se ocorresse no espaço e tempo. Em face dessa certeza irresistível, é compreensível que a razão tenha a maior dificuldade em aceitar a validade da natureza peculiar dos fenómenos telepáticos. Mas, qualquer um que fizer justiça aos fatos não pode senão admitir que suas aparentes total falta de limites espaço-temporais são suas qualidades mais essenciais. Em ultima análise, nossa ingénua percepção e imediata certeza são, falando estritamente, não mais do que evidência de uma forma de percepção psicológica a priori que, simplesmente, controla qualquer outra forma. O fato de que sejamos totalmente incapazes de imaginar uma forma de existência sem espaço e tempo de nenhum modo prova que tal existência seja ela própria impossível. E, desse modo, assim como não podemos deduzir de uma aparência de total falta de limites espaço-temporais nenhuma conclusão absoluta sobre uma forma de existência sem espaço-tempo, também não podemos concluir da qualidade espaço-tempo aparente à nossa percepção que não haja forma de existência sem espaço e tempo. Não é apenas possível duvidar da validade absoluta da percepção espaço-tempo; em vista dos fatos disponíveis, é, mesmo, imperativo fazê-lo. A possibilidade hipotética de que a psique entre em contacto com uma forma de existência fora do espaço e tempo coloca uma interrogação científica que merece sérias considerações por um longo tempo adiante. As ideias e dúvidas dos físicos teóricos em nossos dias deveriam induzir um ânimo cauteloso também nos psicólogos, pois, filosoficamente considerada, o que nós queremos dizer com "plena limitação do espaço" senão uma relativização da categoria espaço? Algo similar poderia facilmente ocorrer com a categoria do tempo (e também com a da causalidade). Dúvidas sobre esses tópicos estão mais justificadas actualmente do que em qualquer tempo anterior.

A natureza da psique atinge obscuridades para muito além do escopo do nosso entendimento. Ela contém tantos enigmas quanto o universo com seus sistemas galácticos, diante de cuja majestosa configuração somente uma mente sem imaginação pode não admitir sua própria insuficiência. Essa incerteza extrema da compreensão humana torna o rebuliço intelectualista não apenas ridículo, mas, também, deploravelmente estúpido. Se, por conseguinte, das necessidades de seu próprio coração, ou de acordo com as antigas lições da sabedoria humana, ou por respeito ao fato psicológico de que a percepção "telepática" ocorre, alguém chegasse à conclusão de que a psique, em seus mais profundos alcances, participa de uma forma de existência para além do espaço e tempo e, assim, compartilha do que é inadequada e simbolicamente descrito como "eternidade"- então a razão crítica não poderia contar com nenhum outro argumento senão que o non liquet5 da ciência. Além disso, esse alguém teria a vantagem inestimável de se adequar a uma tendência da psique humana que existe desde tempos imemoriais e é universal. Qualquer um que não chegue a essa conclusão, seja por cepticismo ou rebelião contra a tradição, por falta de coragem ou experiência psicológica inadequada, ou irreflectida ignorância, tem muito pouca chance, estatisticamente, de se tornar um pioneiro da mente, mas, ao invés, tem a indubitável certeza de entrar em conflito com as verdades de seu sangue. Agora, se essas são, em última instância, verdades absolutas ou não, nós nunca poderemos determinar. Basta que elas estejam presentes em nós como uma "tendência" e nós sabemos, por nossa conta, o que significa entrar em conflito irracional com essas verdades. Significa a mesma coisa do que a negação consciente dos instintos - desenraizamento, desorientação, ausência de significado, ou seja lá como esses sintomas de inferioridade possam ser chamados. Um dos mais fatais erros sociológicos e psicológicos, nos quais nosso tempo é tão abundante, é a suposição de que alguma coisa possa se tornar completamente diferente de um momento para o outro; por exemplo, que o homem possa mudar radicalmente sua natureza, ou que alguma fórmula ou verdade pudesse ser encontrada, o que representaria um começo inteiramente novo. Qualquer mudança essencial, ou mesmo uma ligeira melhoria sempre tem sido um milagre. Desvio da verdade do sangue gera desassossegos neuróticos e nós temos tido o suficiente disso nestes dias. Desassossego gera total ausência de significado e a falta de sentido na vida é uma doença da alma cuja inteira extensão e inteira importância nossa era ainda não começou a compreender.

1 Por excelência. Em francês, no original.

2 Desmedida; falta da justa medida. Em grego latinizado, no original.

3 Senso comum. Em latim, no original.

4 "wishfulfilling fantasy", no original.

5 Não está claro. Em Latim, no original. Essa expressão é usada para afirmar que não se está entendendo bem a situação e por isso não é possível formular um juízo definitivo: na realidade, trata-se de uma antiga fórmula jurídica, expressa por Cícero, que indicava a falta de elementos suficientes para proferir um veredicto, havendo portanto lugar para averiguações suplementares ou para adiamento. (cf. Dicionário de sentenças Latinas r Gregas, de Renzo Tosi, Ed. Martins Fontes).

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