Conflitos das Novas Famílias

 

Conflitos entre os componentes das novas famílias: Ciúme, conflitos pelo poder e rejeição


Ex-marido: teme que o novo marido da ex-mulher assuma o papel de pai dos seus filhos

Mulher: compete pelo amor do marido com os enteados e a mãe deles.

Filho em comum: é acusado de receber mais amor e proteção que os meios-irmãos.

Marido: sente-se culpado por dedicar mais tempo aos enteados do que aos próprios filhos que ficaram sob a guarda da ex-mulher.

Ex-mulher: por ciúme, pode dificultar a relação da madrasta com seus próprios filhos.

Filho do primeiro casamento da mulher: pode rejeitar o padrasto como “substituto” do pai e resistir à sua autoridade.

Filho do primeiro casamento do marido: pode ser visto como usurpador do espaço da madrasta.

No conceito clássico de família tradicional, o casamento era visto como uma instituição indissolúvel.
Nos últimos 50 anos, no Ocidente, houve uma mudança no modelo de família. Modificou as suas dimensões, organizou-se de diversas formas e ainda assumiu novos valores.

A autonomia da mulher, a legalização do divórcio, o aumento do número de adoções e a explosão do número de mães solteiras, favoreceu o surgir de uma infinidade de novas famílias que deu origem a um emaranhado de papéis: madrastas, padrastos, enteados, meios-irmãos, sogros e ex-sogros, mulher e ex-mulheres, provenientes de duas ou mais uniões. E assim a árvore familiar torna-se cada vez maior e mais complexa.

Atualmente, a aspiração de um dos parceiros à felicidade individual se tornou razão legítima para romper o vínculo do casal, diferentemente do passado quando o casamento sobrevivia em nome da união familiar. Há também outros fatores relevantes para o surgimento das novas formas de família como a coabitação, a liberalização ideológica da sexualidade e o aumento da liberdade sexual; aumento dos casais adultos sem filhos; adiamento da idade à maternidade; diminuição da natalidade; conscientização mundial dos direitos das mulheres e das crianças.

As novas famílias contemporâneas apresentam-se por casamentos, por união de fato ou religiosa, como monoparentais, por viuvez, adopção, inseminação artificial e divórcio; extensas e nucleares; como unipessoais e recompostas. Pode-se concluir que a decisão de ter filhos e de quantos ter é programa em função de fatores temporais, económicos e por realização profissional, fazendo depender totalmente o surgimento de famílias novas. Todas estas novas realidades devem-se às mudanças na sociedade bem como às mudanças no sistema interno familiar.

Há muitos mitos em torno do novo núcleo familiar que perturbam as novas famílias:
1) o amor entre todos os membros se estabelece instantaneamente;
2) as crianças estão sempre em primeiro lugar;
3) padrastos e madrastas são maus;
4) um novo bebé vai criar o elo que falta.

Adultos e crianças precisam se desprender desses mitos e criar sua própria experiência, para poderem viver a nova família em harmonia.

As novas relações nem sempre são amenas: ciúme, brigas pelo poder, a sombra dos ex-cônjuges e dificuldades de relacionamento entre os enteados podem dar início a uma guerra.

Devemos lembrar que as transformações da família são fonte de conflitos nem sempre declarados, que podem vir à tona a qualquer momento.

A instituição familiar precisa se adaptar aos novos tempos e dar lugar à igualdade e o respeito entre todos os integrantes, o que acontece na maioria das famílias, onde “ex”, padrastos e enteados convivem em paz.

O psicólogo americano James H. Bray, do Baylor College of Medicine, em Houston, no Texas, acompanhou 200 novas famílias e as classificou em três categorias:

– “neotradicional”, em que os casais têm uma relação extremamente sólida. As questões dos filhos de um lado ou de outro são resolvidas com cumplicidade e firmeza, em parceria. Essas famílias não têm expetativas de perfeição e aprendem com os erros. Costuma ser a que dá mais certo, mas é também a mais rara.
– “matriarcal”, em que a mãe é a figura central do grupo e o novo marido, padrasto de seus filhos, tem o papel de companheiro, mas mantém distância da rotina e da educação das crianças.
família “romântica”, em que se espera o mesmo padrão de afeto da família nuclear tradicional – e por isso seus membros não reagem bem aos conflitos normais desse tipo de arranjo. É nesse tipo que costuma haver a maior parte das separações. Casais que decidem formar uma nova família, precisam fazer uma espécie de “replaneamento”.

É preciso discutir o que caberá financeiramente a cada um e deixar claro o que cada um pode ou não pode em relação aos enteados. E, sobretudo, fazer compactuar com os problemas um do outro. O casal é a base da família. Se está forte, todo o resto será beneficiado.

A família que vive no imaginário coletivo ainda é a família nuclear, embora a família não-nuclear é atualmente a realidade da maioria das pessoas. Quando há diferenças entre a família-padrão e a nova família, surgem a ansiedade e o sofrimento, por ela não incorporar os personagens desse imaginário.

A tendência é que haja um aumento desses novos núcleos familiares: harmoniosos ou conflituosos.
É mais comum a mulher ter ciúme e formar “triângulos” com o marido e os enteados que o padrasto com os filhos da mulher. As madrastas sentem-se desrespeitadas pelos enteados, injustiçadas pelos maridos e confrontadas por suas ex-esposas.

Não faltam obstáculos para a harmonia nos novos núcleos. O primeiro deles é o desrespeito com o passado do outro. São comuns casos de homens e mulheres que não aceitam a proximidade entre seus companheiros atuais e os “ex” – e vice-versa. A má influência dos ex também chega, indiretamente, através das crianças. É a “crise de fidelidade” dos filhos em relação ao pai ou à mãe responsável pela desavença: eles se tornam agressivos com o padrasto ou a madrasta, fazendo transbordar o ciúme.

É comum a mulher se queixar da desobediência dos enteados e muitas vezes não sabe que decisão tomar.

Quando a madrasta não aceita o enteado, na verdade não está a aceitar o passado do marido. Um filho é um vínculo de carne e osso com a ex-mulher. O leva e traz de uma casa para outra é muito comum, usar as crianças como “pombos-correios” é um desrespeito às crianças. E a disputa entre meios-irmãos por atenção pode pôr fim a casamentos.

As pessoas se separam para fugir de determinadas tensões e, ao se casar de novo, substituem-nas por outras. Muitos homens em segundos e terceiros casamentos reclamam da rotina de ciúme e desentendimentos envolvendo filhos, ex-mulher e atual mulher. Os conflitos são maiores quando a nova mulher não tem filhos. É a frustração do desejo de ser a primeira a dar filhos àquele homem. Sob pressão de dois – ou mais – lados, os homens muitas vezes se calam, o que faz o problema crescer. Eles receiam que o casamento fracasse novamente. Acabam cedendo à mulher para encerrar o assunto.

Os conservadores culpam o modelo moderno de família pela existência de conflitos. A questão não começa na família reconstituída – e sim na família desfeita. A separação contradiz o que foi prometido ao outro. Quando surgiu a lei do divórcio, falou-se em exceção. Hoje, virou regra. Separar-se é muito comum.

As famílias recompostas surgem como casos especiais, cuja estrutura incerta remete para a complexidade das relações entre os seus membros. É preciso saber gerir estas relações, ricas em tensões, em conflitos e em recursos.

Para compreender o clima emocional destas famílias, é necessário analisar como se processou a separação, com o seu cortejo de conflitos, de emoções e de mudanças, analisar a constituição do novo casal e a definição das novas funções parentais. Devemos lembrar que o diálogo é a receita básica para reorganizar a família.

Dicas para viver em harmonia:

Não apagar o passado. Obrigar o marido ou a mulher a ignorar ou tratar mal, ou a não falar com o(a) ex – especialmente quando há filhos no meio – é um grande erro. Deve-se tratar do assunto com delicadeza, mas sem receio.

Evitar comentários maldosos. Não se deve falar mal do pai ou da mãe do enteado na frente dele. A tendência da criança é ser fiel aos pais. Isso a coloca contra o padrasto ou a madrasta. É o começo da maioria dos conflitos.

Tratar o ciúme com leveza. Em vez de se afastar ao ver o cônjuge brincar com o enteado, é melhor juntar-se à brincadeira. Vai relaxar o ambiente.

Impor-se com diplomacia. Ao ouvir a célebre frase “Você não é minha mãe!”, não se deve responder no mesmo tom. “Diga que você não é a mãe, mas é alguém que se preocupa com ele. Depois, pode-se relatar o que ocorreu ao pai da criança e pedir que ele converse com o filho.

Criar regras claras. Crianças devem saber que na casa do pai é de um jeito e na da mãe pode ser de outro.

Delimitar os espaços. O enteado deve respeitar o que é do padrasto ou da madrasta. Mesmo que seja uma criança pequena, cabe ao pai ou à mãe ensiná-la sobre a privacidade.

Não engolir sapos. É um comportamento dos mais nocivos. Conflitos devem ser discutidos.

Tratar todos com igualdade. Tudo varia de acordo com a idade, mas abrir exceções e criar privilégios em casa cria confusão e incita a briga entre irmãos e meios-irmãos.
A resolução dos problemas da nova família passa pelos mesmos da família tradicional. É preciso tolerância para lidar com as diferenças, bom humor para enfrentar as dificuldades e controlo das próprias fantasias e inseguranças.

Concluindo:

Os pais devem ter muito cuidado para não usar os filhos como armas uns contra os outros e precisam sentir a responsabilidade no que toca aos melhores interesses da criança, criando com esta laços familiares adequados ao seu crescimento e à sua formação. Só assim os filhos poderão crescer e se formar como adultos dentro de uma parentalidade normal.

A vida em família é uma eterna “negociação”. Seja qual for o seu tipo, há um objetivo comum, o de constituir uma família o mais funcional e harmoniosa possível, onde existe amor, respeito e partilha.


 

 

 

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